Escrito por Administrator | Ter, 18 de Outubro de 2011 19:31 LAST_UPDATED2 por Administrator
Muito a comemorar
Por Nina Fideles
A Cooperativa de Cultura da Periferia, a Cooperifa, completa em 2011 uma década de intervenções artísticas em São Paulo. São 500 saraus, ações em escolas, presídios, distribuição de livros, premiações, além das atividades que já fazem parte do calendário anual, como Poesia no Ar, Ajoelhaço, Chuva de Livros e Mostra Cultural, que, com o gostinho especial de dez anos, chega a sua 4ª edição.
Como parte das comemorações, também foi realizada a 1ª Mostra Cinema na Laje, entre os dias 8 de agosto e 5 de setembro, quinzenalmente, às segundas-feiras, com a exibição de filmes e documentários.
Poesias, poemas, contos, palmas. Mais palmas. Além de soar assim para nossos ouvidos, as sensações que envolvem o conhecido Sarau da Cooperifa transcendem a audição. Cores, dores, rostos, sabores e sonhos da periferia paulistana. Todas num mesmo lugar.
O sarau acontece às quartas-feiras no Bar do Zé Batidão, bairro da Piraporinha, zona sul de São Paulo, e reúne até 300 pessoas para compartilhar a literatura. Entre 21h e 23h, "o silêncio é uma prece", pois os poetas devem ser ouvidos com atenção. E somente eles devem provocar barulho no bar com assovios, gritos e palmas do público que os prestigia.

Atualmente, 60 a 70 poetas participam do Sarau da Cooperifa / Foto: Nina Fideles
Antes de chegar ao bar do Zé Batidão, outros endereços foram morada da ]poesia periférica. O Bar do Português, o Garajão, a Fábrica. Todos eles em Taboão da Serra, município da Grande São Paulo. E se hoje são cerca de 60 a 70 poetas compartilhando o microfone no Sarau da Cooperifa, antes cada poeta recitava de seis a oito poesias. "Não tinha público, só poetas", conta Rose Dorea, 36 anos, uma das integrantes da Cooperifa que acompanhou tudo desde o início.
Mas é impossível contar a história da Cooperifa sem falar sobre o poeta e idealizador do movimento, Sérgio Vaz. "Eu sempre tive ideia de agregar pessoas. Eu era um poeta que ninguém lia, gostava de cultura e ia pro centro. Quando ia ao Bexiga, via aqueles bares e pensava que poderia ser igual na periferia. Que podia ter um lugar como aquele por aqui. A ideia sempre foi de agregar, mas não sabia que seria assim".

Sergio Vaz (ao centro) é poeta e idealizador da Cooperifa / Foto: Nina Fideles
As duas histórias de vida (Cooperifa e Sérgio Vaz) caminham juntas. Aliás, nem Sérgio, nem a Cooperifa existiriam se não fosse a decisão do primeiro "em se libertar". Ao largar um emprego em que ganhava R$ 1,5 mil, há 10 anos, para construir algo que nem ele mesmo sabia exatamente o que era. "A ideia era de sobrevivência. Eu precisava sobreviver como pessoa fazendo aquilo. Ou era ter emprego e me matar ou viver passando fome fazendo o que eu queria. Foi nesta decisão que nasceu este cara que tá aqui. Eu salvei minha vida. Chego em casa, falo com minha esposa e agradeço a cada minuto por não ter sido covarde. Ter enfrentado todos, tudo e acreditado no que eu sou", declara.
Desde então, foram muitas noites sem dormir - por conta da insônia - percalços financeiros, inimigos criados, amigos construídos, poesias escritas, livros lançados, conquistas. Dez anos de Cooperifa, 46 de idade e uma mente fervilhando novas ideias.
A bússola
O sarau contempla idades, ritmos, linguagens e cores. Os poetas são chamados ao microfone e aclamados pelo público. Cada um com seu estilo. As crianças também participam e aos poucos vão se soltando. E quem nunca encarou o público também se desafia. Quando Rose ia às reuniões iniciais do que mais tarde seria a Cooperifa, ela não declamava. Hoje, escreve poemas. Rose voltou a estudar, sofreu a perda dos pais e do irmão, teve uma filha. Em alguns períodos teve que se afastar, mas o sentimento de ser Cooperifa não se perdeu. "A Cooperifa é o meu norte. Tudo o que consegui foi graças a ela".
Dona Edith Marques, 68 anos, é frequentadora da Cooperifa há quase cinco anos. Ela foi gradativamente perdendo a visão por conta de uma retinopatia, agravada pela diabete que começou há uns 15 anos. Conta, orgulhosa, que faltou ao sarau apenas duas vezes neste ano e no ano passado. "Quando eu não vou, sinto falta. Eu gosto de declamar e adoro ouvir as pessoas. Cada uma tem uma interpretação diferente. Tem hora que choro, dou risada...".
Com uma voz marcante e certeza no que diz, ela recita com a alma poemas de Cora Coralina, trechos de Navio Negreiro, de Castro Alves, e outras. Gosta de destacar a cantiga Vagalume, de Fagundes Varela, "pois relaciono o tema comigo e minha visão". Para decorar as poesias ela conta com a ajuda da sobrinha que grava em fitas cassete poesias e trechos de livros para depois ouvir no walkman. "A Cooperifa deu norte à minha própria existência. Difícil colocar em palavras o que ela acrescenta em minha vida", enfatiza.

Dona Edith Marques, 68 anos, é frequentadora da Cooperifa / Foto: Nina Fideles
Além de dar sentido à vida de muitas pessoas, Sérgio Vaz se orgulha em dizer que a Cooperifa deu e incentivou um novo rumo à produção cultural. São muitos os saraus que surgiram inspirados na Cooperifa, em São Paulo e no Brasil, e foi possível mostrar que a periferia não apenas consome cultura, mas produz. "Hoje a periferia tá vivendo o que a classe média viveu nos anos 60, 70. Vivemos uma primavera periférica. E esta efervescência cultural é uma característica de São Paulo, que nunca viveu isso. A classe média continua indo ao cinema, ao teatro, mas é mais do mesmo".
O caminho periferia-centro, percorrido há anos pela população da periferia que buscava cultura, mudou. "As pessoas querem ver alguma coisa nova, diferente e estão fazendo outro caminho, invertendo a bússola. Esse negócio de centro-periferia hoje é uma questão territorial, de CEP, de poder, de grana, não mais de criatividade. E não é uma coisa contra o centro, é a favor da periferia", ressalta Sérgio.
4ª Mostra Cultural da Cooperifa
Com uma programação recheada, envolvendo mais de 100 artistas, a Mostra deste ano é marcante para quem faz parte da Cooperifa, pois representa também os dez anos deste movimento cultural. A atividade de abertura aconteceu no dia 14, última sexta-feira, e lotou o auditório do CEU Casa Blanca, dando o pontapé inicial para oito dias de música, palestras, debates, teatro, em diversos pontos da zona sul de São Paulo, como escolas, CEUs, casas de cultura e mais.
Ao longo da cerimônia de abertura, diversos momentos importantes da história da Cooperifa foram relembrados e compartilhados por meio de vídeos e fotos. O grupo Ballet Afro Koteban fez uma apresentação de dança e música afro em grande estilo e o grupo Umojá convidou os presentes e formou uma grande ciranda. E, para encerrar, subiu ao palco o grupo de rap Versão Popular, lançado também pela Cooperifa.
Para Sérgio Vaz, esta Mostra com certeza é mais marcante por representar o momento que vive a Cooperifa. "Essa mostra tá linda! Não só porque são dez anos, é porque ela tá linda mesmo. Tem muita gente envolvida. O bairro tá todo pipocado, São Paulo tá falando disso. Temos qualidade no material, nas atrações. Estamos mostrando que a gente pode!".
Acompanhe a programação aqui: www.colecionadordepedras1.blogspot.com









